Estados que melhoraram resultados no Ideb colocaram foco em ensino integral, projetos integrados e desenvolvimento emocional

Especialistas destacam iniciativas que podem ter contribuído para melhorar o desempenho ao longo dos anos. IDEB 2019 mostra que a aprendizagem tende a cair à medida que o aluno avança na escola
Com base no desempenho dos estados brasileiros no Ideb dos últimos anos, especialistas destacam quais iniciativas podem ter melhorado o desempenho de estados como Ceará, Espírito Santo, Goiás e Pernambuco. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica avalia o conhecimento dos alunos em português e em matemática, além de considerar as taxas de reprovação em cada localidade.
Os pontos que aparecem nos melhores índices:
expansão do ensino integral;
currículos que desenvolvem o lado emocional;
escolha de gestores escolares por processo seletivo, não por nomeação política;
integração entre as políticas públicas e os projetos para os ensinos fundamental e médio e uma gestão pedagógica sistêmica envolvendo todas as etapas;
investimentos em infraestrutura;
equidade no desenvolvimento dos municípios;

No geral do país, os resultados do Ideb 2019 ficaram assim:
No ensino médio, o Brasil não atingiu a meta estipulada pelo Ministério da Educação (MEC). Apesar disso, houve melhora em relação à edição anterior do Ideb, de 2017.
Nos anos iniciais do ensino fundamental, o Ideb nacional, mais uma vez, ultrapassou a meta. No entanto, nos anos finais, ficou com desempenho abaixo do esperado.
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Confira abaixo, na visão de especialistas em educação, o que fizeram os estados que obtiveram melhora nos seus desempenhos ao longo dos anos:
1- Expansão do ensino integral
Por mais que o Brasil não tenha atingido a meta proposta pelo MEC no ensino médio, houve uma evolução no Ideb de 2019 em relação às edições anteriores. Entre 2011 e 2015, o índice ficou estagnado em 3,7. Depois, em 2017, subiu apenas 0,1. Até dar um salto maior e atingir o patamar atual de 4,2.
Segundo Olavo Nogueira Filho, diretor de políticas educacionais da organização Todos Pela Educação, a expansão do ensino integral em Pernambuco colaborou para o aumento do Ideb no estado no ensino médio. Apesar de não cumprir a meta, subiu de 4,1 (2017) para 4,5 (2019). O exemplo foi seguido também por Espírito Santo (maior Ideb no ensino médio do país), Goiás (único estado a bater a meta estabelecida) e Ceará (maior evolução histórica do Ideb nos anos iniciais do ensino fundamental).
“Não é apenas ampliar a carga horária das escolas, e sim pensar em um modelo mais atrativo para o jovem. Não é para oferecer mais do mesmo”, afirma Nogueira Filho.
“No modelo histórico de ensino integral, os estudantes tinham aulas de manhã e, à tarde, participavam de atividades extracurriculares. Já ficou provado que isso tem um potencial muito baixo de melhoria na aprendizagem. O que faz a diferença é pensar em um currículo próprio para a escola integral”, completa.
Ele menciona também que, em Pernambuco, os professores do ensino integral dedicam-se exclusivamente à escola – não precisam procurar mais de um emprego. “Ficar mais tempo com os mesmos alunos cria espírito de equipe e vínculo com as turmas”, afirma o especialista.
2- Desenvolvimento emocional como parte do currículo
Em muitas escolas integrais os currículos agora exploram o desenvolvimento emocional e estimulam os jovens a tomarem a iniciativa. “Pernambuco introduziu, além das disciplinas básicas, uma série de aulas sobre desenvolvimento emocional. Os alunos são estimulados a formar clubes, a participar de orientações de estudo e a elaborar um projeto de vida”, diz Nogueira Filho.
Ele avalia que “não dá mais para pensar em uma escola onde o adolescente é apenas receptor de conteúdos. Ele deve participar do processo escolar.”
3- Mudança na escolha de gestores
Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que a forma de escolher os gestores educacionais pode ter sido decisiva para uma melhora no Ideb de alguns estados.
“Houve uma maior profissionalização da gestão das redes estaduais. Boa parte dos funcionários foi escolhida por processo seletivo, e não indicada politicamente”, diz Costin. Ela cita os exemplos de Goiás e Paraná, que organizaram seleções para eleger os secretários estaduais. Também menciona São Paulo, que escolheu um representante com experiência prévia em gestão.
4- Integração entre políticas públicas
As políticas públicas de educação, no ensino fundamental ou no médio, precisam estar interligadas, na visão dos especialistas. “Os estados com melhora no Ideb articularam as ações propostas. Não acreditaram que uma só seria a solução mágica nem fizeram um número enorme de projetos, mas sem conexão entre eles. Sem coerência, não há resultado na escola”, diz Nogueira Filho.
A ideia de integração passa por um currículo novo a ser ensinado nos colégios deve estar em sintonia com as avaliações aplicadas, com as iniciativas de formação docente e com os investimentos em infraestrutura, afirma o especialista. “Não faz sentido pensar em um material de apoio que não converse com os programas que preparam os professores.”
Outro elemento importante observado nos estados com melhora no Ideb é a continuidade das políticas públicas, mesmo quando há troca de governantes. “Muitas vezes, quando um novo partido ganha a eleição, tudo o que já foi feito é desconstruído, mesmo o que estava dando certo”, diz Costin, da FGV.
“No Espírito Santo [melhor Ideb de ensino médio], o ensino integral não só se manteve, como também foi ampliado.”
5- Investimentos em infraestrutura
Secretarias de ensino entenderam, segundo Olavo Nogueira Filho, a importância de investir em infraestrutura nas escolas. “Um bom ambiente na sala de aula favorece o processo de aprendizagem. Claro que esse fator, isoladamente, não resolve o problema da educação brasileira. Mas deve ser um dos focos”, diz.
Dados divulgados no passado pela Unesco mostram uma associação feita constantemente entre os educadores: boa infraestrutura é encontrada em escolas que apresentam bons níveis educacionais.
6- Equidade no desenvolvimento dos municípios
Outro fator importante é proporcionar o desenvolvimento educacional a todos os municípios. Costin cita o caso do Ceará, que “conseguiu promover mudanças em todas as cidades nos últimos 10 anos”.
No ranking nacional de 2019, o estado apresentou o melhor desempenho nos anos iniciais do ensino fundamental, nos quais a rede municipal tem maior participação.
“Houve um avanço de qualidade, com equidade. Outros estados estão se inspirando no que o Ceará fez – conseguir, mesmo em um cenário de muita pobreza, fazer diferente e em larga escala”, afirma Costin.
7 – Quatro estados entre os 7 melhores, e o que eles têm em comum
Quatro estados estão entre as sete melhores avaliações do ensino fundamental ao médio.
Na etapa intermediária de ensino, do 5º ao 9º ano, estes estados ocupam do primeiro ao quarto lugar do ranking geral, sem considerar se bateram ou não a meta: SP, CE, GO e PR.
Ideb 2019, por estado, todas as redes
Na análise do Ricardo Henriques, ex-secretário de Educação Continuada do MEC e superintendente executivo do Instituto Unibanco, estas redes de ensino adotam uma visão única na pedagogia de todos os ciclos, como um sistema, com foco na aprendizagem do aluno em vez da reprovação.
“É a repetição [em todas as etapas de ensino] da prática de gestão orientada para a aprendizagem. É uma gestão que tem a ver com metas, mas também é pedagógica, em uma visão estruturada. Uma gestão para avanço contínuo, para a melhora.”
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Desafios
Os números do Ideb 2019 indicam o desafio de replicar a melhoria da aprendizagem e da aprovação nos primeiros anos de ensino para as demais etapas.
Se, desde que foi criado em 2005, o Ideb tem demonstrado bons índices do 1º ao 5º ano, por que este aluno não mantém a aprendizagem e aprovação nos anos seguintes em todos os estados?
“Ninguém tem essa resposta”, afirma Reynaldo Fernandes, criador do índice quando era presidente do Instituto de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Algumas pessoas defendiam a teoria da “onda”, que é investir nos anos iniciais para impactar nos anos seguintes conforme o aluno vai evoluindo, mas isso não aconteceu”, afirma Fernandes.
Para especialistas ouvidos pelo G1, os principais desafios são:
Suavizar a mudança de rotina escolar entre os ciclos
Olhar atento ao desenvolvimento do estudante (pessoal e escolar)
Implementar regimes de colaboração entre as redes de ensino
Combater a reprovação e focar em acompanhamento
Evitar o aumento da desigualdade
A mudança de rotina escolar – de uma única professora para diversos outros, separados por disciplina – é apontada como um dos fatores que pode impactar na aprendizagem, aliada às alterações na vida do aluno, que passa da pré-adolescência à adolescência.
“Há uma ruptura muito grande [do ensino fundamental 1 para o 2]. Muda o jeito de organizar o currículo, muda o jeito da escola, muitas vezes o aluno muda de rede [da municipal para estadual, por exemplo]. Isso quando a criança passa de 10 para 11 anos”, afirma Inês Kisil Miskalo, gerente executiva de articulação do Instituto Ayrton Senna.
“É preciso olhar a educação básica como um todo e não segmentar em fundamental 1, 2 e ensino médio”, defende. Para replicar ações bem sucedidas, é preciso superar diferenças, avalia.
“Isso significa superar diferenças, fazer articulação, encontrar um ponto acima dos interesses pessoais ou particulares, encontrar um ponto comum [de sucesso] e tirar o que não está dando certo”, afirma.
Para Patrícia Guedes, gerente de pesquisa e desenvolvimento do Itaú Social, um dos entraves na educação do país é a cultura de reprovação, que tende a desestimular o estudante e levá-lo a repetir de ano, o que eleva o risco de abandono de estudos caso esta defasagem fique muito grande.
“Onde a defasagem de série é alta, não há maior aprendizagem. Os dados do Ideb são piores. Tem estados com porcentagem de alunos com defasagem de série em torno de 20%. É muito. É imaginar que 1 a cada 5 alunos chegam ao 5º ano tendo repetido duas ou mais vezes de ano”, avalia.
“Quando a gente chega aos resultados do ensino médio, estamos olhando o sobrevivente, o aluno que não evadiu”, reflete Guedes. Ela defende estratégias de reforço e de práticas diferentes de ensino e aprendizagem para tentar recuperar o aluno que não aprendeu.
“A gente precisa olhar a trajetória escolar dos alunos, o que acontece com alunos que vão sendo expulsos, desmotivados a estudar.”
Outro desafio é evitar que o Ideb aumente desigualdades no país, alerta o professor da faculdade de Educação da Unicamp, Maurício Ernica.
Ele explica que, como o Ideb é um índice calculado sobre médias de aprendizagem e aprovação, a mudança de avaliação não significa universalizar o acesso ao ensino: bastaria investir em um grupo pequeno de estudantes para que estes resultados afete o total.
“Gostamos de reproduzir experiências vistosas: escola modelo, ensino integral. Mas de repente essas escolas podem até puxar a média para cima, mas o nosso problema é a concentração enorme de gente aprendendo muito pouco”, avalia.
“Não podemos aceitar que tanta gente chegue aos 10 anos com competências tão baixas em língua portuguesa e matemática, especialmente quando essa condição é muito marcada pela desigualdade, porque terá consequências sobre o resto da escolarização”, afirma.

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