“O Nome da Rosa” tem ação e narrativas paralelas de protagonismo feminino

Assiste-se com prazer à minissérie O Nome da Rosa, baseada na obra de Umberto Eco, na plataforma digital Starzplay. Oito capítulos, dirigidos por Giacomo Battiato, com John Turturro no papel do monge-investigador Guilherme de Baskerville.

O romance foi lançado em 1980, primeira ficção de um erudito, semiólogo e medievalista, autor de livros fundamentais em seu campo de atuação, incluindo o notável Obra Aberta, de repercussão mundial. O Nome da Rosa foi levado às telas em 1986 pelo diretor francês Jean-Jacques Annaud, tendo Sean Connery no papel principal.

O sucesso do livro foi imediato e surpreendente. Afinal, apesar do enredo detetivesco, não é obra fácil. Traz longos textos em latim (não traduzidos) e, diluída em suas páginas, toda uma tese de filosofia medieval. Entre seus mistérios, inclui o título, o hexâmetro de De Contemptu Mundi, de Bernardo Morliacense, um beneditino do século 12, conforme explica Eco em Pós-Escrito ao Nome da Rosa.

São essas as últimas palavras do romance: Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus. A tradução elegante, embora um tanto parcial, seria “Da rosa de outrora só nos resta o nome”. Ou, literalmente, “A rosa antiga permanece no nome, nada temos além dos nomes”. A frase pertence à família reflexiva de François Villon e seu verso “Où sont les neiges d’antan?” Onde estão as neves do passado? Termo poético para a constatação de que o tempo tudo leva (o “tempus edax”, de que fala Espinosa, tempo voraz). E o que escapa ao tempo? Apenas as palavras, os nomes. Da rosa de outrora, fica apenas o nome.

A frase adquire peso maior quando se sabe que é dita, ou melhor, escrita, pelo narrador da história, o então noviço Adso de Melk, que acompanha Guilherme de Baskerville ao convento onde se passa a ação ao longo de alguns dias. Ao escrever a história, Adso é já o homem velho que a rememora, ciente de que, em meio às cinzas a que tudo se destina, talvez restem apenas as palavras por ele registradas no papel.

Os desafios de transpor um romance desse gênero para a linguagem audiovisual são praticamente intransponíveis. O próprio livro convida à simplificação ao seu estruturar em torno de uma investigação. Nesse caminho, com ênfases diferentes, seguiram tanto o filme de 1986 como a minissérie de 2020.

Tanto Annaud como Battiato concentram-se mais na ação que na reflexão. Battiato dá-se ao luxo de construir tramas paralelas, que não existem no romance original. E, através de algumas delas, sintoniza-se com o ar do nosso tempo, que pede protagonismo feminino ausente tanto do romance como do filme de 1986.

John Turturro, associado ao projeto não apenas como ator, mas como produtor executivo, tem dito em entrevistas que procurou manter-se mais próximo ao livro. E, de fato, consegue desenvolver um pouco mais os detalhes da história já que, em vez das duas horas e dez minutos de duração do filme, dispunha das mais de oito disponíveis na minissérie. Desse modo, pôde articular a trama em ritmo mais pausado e reflexivo.

Mesmo assim, os temas filosóficos entram de maneira muito secundária na série, diferentemente do que acontece no livro, no qual detêm o protagonismo.

Outro ponto que permanece um tanto confuso – tanto na série como no filme – é o segundo subtema do livro: o contexto político da época. A história se passa em 1327, num período de luta pelo poder entre diversas ordens religiosas, o poder secular representado pelo imperador e o eclesiástico pelo papa João XXII sediado em Avignon, na França, e não mais em Roma. É uma época de luta intensa, em que a Igreja lança a mão pesada da Inquisição contra ordens consideradas heréticas dentro do cristianismo.

Não por acaso, um dos personagens principais do livro (e também da minissérie e do filme) é um inquisidor, Bernardo Gui, que chega ao mosteiro para um encontro entre várias correntes da Igreja. Esse conselhos evangélico, sobre a pobreza ou não do Cristo como fonte de inspiração para a Igreja, deveria ocupar o centro da história na abadia, mas é perturbado pelo assassinato em série dos monges. Gui (F. Murray Abraham no filme, Rupert Everett na série) será o oponente maior do franciscano Guilherme de Baskerville.

Assim como uma árvore se ramifica e se expande, a história evolui por outros temas, entrelaçados.

No centro de todos, a biblioteca labiríntica, orgulho da abadia, porém vigiada e franqueada a poucos, porque contém segredos não recomendáveis a todos. O saber é perigoso e deve ser restrito apenas a alguns, pensa o abade, e, como ele, parte significativa da Igreja.

Sobretudo textos que poderiam ser considerados subversivos, como um em particular, sobre o humor. Sim, porque o humor é perigoso, destrói certezas, abala hierarquias e pode introduzir a desordem no mundo, como pensam os conservadores. A biblioteca e o seu implacável vigilante, o cego Jorge, remetem a uma das paixões de Umberto Eco e sua influência reconhecida, o escritor argentino Jorge Luis Borges, dono de um pensamento labiríntico e chegado a paradoxos abissais.

Como se vê, há um emaranhado de temas e questões neste enredo imaginado por Eco. A disputa pelo poder, luta pelo acesso ao saber visto como fonte de liberação, referências culturais em vários níveis, de Conan Doyle a Borges passando pela filosofia medieval e pela hermenêutica cristã. Como a História muda mas as paixões humanas parecem atravessar os séculos, muito daquela época passada remete ao mundo de hoje.

Tanto a série de Battiato como o longa-metragem de Annaud nos levam a um vislumbre desse mundo desaparecido e no entanto ainda tão presente. A minissérie é mais extensa e às vezes mais dispersiva. Annaud deixa de lado elementos fundamentais, mas atinge uma clareza sintética em sua narrativa. Nem a série nem o filme substituem a inteireza do livro, um mundo fechado em si mas dotado de labirintos, intrigas e corredores obscuros do pensamento, que sempre fazem o leitor pensar. E dele, leitor, espera-se a palavra final, como dizia o próprio Umberto Eco ao se recusar a interpretar suas obras.

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